Enquanto você dormia grudada à minha barriga, uma saudade antecipada me visitou. Por quanto tempo mais você desejará “dormir em nossas barriguinhas”, vir pra casa da Dinda, abraçar com um colinho? Por quanto tempo mais aguentarei te pegar no colo e você não sentirá vergonha de querer esse colo? O tempo passa mais rápido do que temos tempo de perceber e quando nos damos conta, várias metamorfoses já se processaram. Senti saudades das tuas incorreções:
“Dinda, essa roupa não tá confortada”, “Dinda, na cadeira nova que a mamãe comprou não tem travesseiro, não é confortada”, “Dinda, eu gostei muito da sua roupa, mas se não tinha isso aqui, era mais confortada”; “Dinda, quando comprar meia pra mim tem que ser confortada, porque quando não é confortada…ih… aí é uma luta da guerra!”.
Senti saudades de você tão pequenina em Terê, me chamando à noite:
__Dinda, vamos lá fora ver os “gagalumes”?
e daquele primeiro Natal sem seu vô “Icino”, ainda aos três anos e meio, em que precisamos nos esforçar pra perpetuar o Papai Noel pra você que, tão cedo, aprendia a perda que eu só aprendi aos dezoito. Já tão cedo, sabia me consolar pela minha maior perda. Você, nossa compensação generosa da Vida por todas as perdas passadas e futuras. Naquele ano você recebeu o presente que Papai Noel deixou na minha casa e, reconhecendo o papel amarelo da loja de brinquedos, imediatamente se deu conta:
__Dinda, é do “shopem”!!!
Precisei pensar rápido:
__Sim, Bia, Papai Noel é velhinho, é muito brinquedo pra ele trazer lá do Polo Norte. Ele encomenda uma parte na loja do shopping pra não precisar carregar tanto peso desde lá.
__Mas Dinda, no “shopem” o Papai Noel só fica sentado na cadeira dele, ele não vai na loja.
__Vai sim, só que na hora de ir na loja, ele tem que se disfarçar, porque o Papai Noel é muito famoso. Ele coloca outra roupa e usa um chapéu e óculos de sol. Aí ninguém reconhece ele, senão ele não consegue ter paz pra separar os brinquedos que as crianças pediram nas cartinhas. Já pensou, se todo mundo ficasse em cima do Papai Noel na hora de separar os brinquedos? Ele ia se embananar todo e confundir as cartinhas de todo mundo. A boneca que você pediu ia parar lá na casa do Dário.
No ano seguinte, Papai Noel novamente desafiou a sua lógica e tive que rebolar de novo:
__Dinda, o verão é dezembro?!
__Sim, o verão é em dezembro.
__Mas o verão é quente, e dezembro é o Natal.
__Sim, Bia, é quente e é Natal.
__Mas Dinda, o Papai Noel tem casaco de frio.
Aí tive que me virar pra tentar te explicar que quando é quente aqui no Brasil, é frio lá no Polo Norte, que é muuuuuuito longe daqui (usei um globo e girei ele em torno de seu eixo, mas não sei o quanto você foi capaz de compreender aquilo. Mais tarde haverá tempo para voltarmos a isso)
__Mas o Papai Noel não fica com calor, de casaco?
__Fica. Aqui no Brasil ele sente muito calor. Por isso que ele deixa os presentes muito rápido e a gente nem consegue ver ele. Ele tem que entregar os presentes de uniforme, mas logo corre pra vestir um shortinho e uma camiseta. É o calorão! Você ia gostar de ver o Papai Noel de shortinho e camiseta?
__Eu ia!! O Papai Noel vai na piscina?

No ano passado você pediu para deixarmos a câmera ligada a noite toda, pra gente ver se o Papai Noel existe. Acho que foi o último, pena…

Saudades antecipadas de você me perguntando repetidas vezes e ouvindo respostas evoluindo:
__Dinda, mas como eu fui parar, sementinha, na barriga da minha mãe?

Ontem você me disse que já podia tomar banho sozinha. Gastou um frasco inteiro do teu sabonete líquido de patinho, que não arde, mas tenho que reconhecer que de fato saiu limpinha, até as unhas do pé. Também disse que não precisava mais cantar a música do ritmo da escovinha pra lavar as unhas. Senti saudades do nosso ‘thchum-tchá tchum-tchum-tchum-tchá”.
__Já sei lavar sem música, Dinda.
Depois do banho preencheu meu nome completo na passagem, antes de me embarcar no “avião chique de gente rica” e dizendo que foi bom que eu tivesse podido comprar aquela passagem cara, senão ia ter que viajar com a baratinha e ajudar a atender os outros “pacientes” do avião:
__Eles pedem muita coisa e fazem muito barulho. Nem queira!
Fiquei te vendo, enquanto me atendia no balcão de check-in improvisado ao lado da cama, me perguntando:
__Você tem zazap.com.br? (Dinda, como escreve zazap-ponto-com-ponto-br?) Tem “Google Pei”? “Apple Pei”?
__Não tenho, não, senhora.
__E tem Simplox? Com Simplox é mais baratinho.
__O que é Simplox?
__(Eu inventei, Dinda!) Senhora, é um jeito de pagar o ingresso pra entrar no avião. Mas aí o avião não te deixa no Japão, só no Holvix, que é o meu país.(começa a falar enrolado a língua de Holovix e de repente volta ao Portugês, empolgada: Dinda, eu te contei que eu vou conhecer a textura da neve? É meu sonho!)

Já foram tantos os teus sonhos, tantos ainda por vir… Saudades antecipadas de te ouvir:
__Dinda, “diavinha” o que eu trouxe pra gente brincar!
__Não pode colar com essa fita, Dinda! tem que ser o durex que é “estamparente”, pra aparecer o rosa embaixo da fita.
__Dinda, hoje o salão vai ser especial. Vou te deixar linda, igual à Fridinha! (e me pintando sobrancelhas de Frida, enchendo de colares e flores)

Saudades antecipadas das tuas incorreções, da minha pena de corrigi-las. De você me corrigindo o tom, com seu canto afinadíssimo, de você me ensinando o carimbó do Mestre Pinduca.  O mundo te ensinará muito do que não ensinamos, por medo de te perder cedo demais para ele ou por incapacidade, mesmo. Você verá que nenhum de nós sabe tudo – é tão pouco o que sabemos e há tanto, sempre, por descobrir e aprender – aí a beleza da Vida! Nem você saberá tudo – você verá -, mas confio na sua curiosidade, no seu desejo já expresso: ” Dinda, eu tenho muitas perguntas pra moça que fala no computador do Marcus, porque tem muitas coisas no mundo que eu não sei e quero saber”. Nós todos seguiremos te amando assim, cheia de curiosidades, de incorreções e repleta de correções, que vão desde seu narizinho arrebitadinho e perfeito, das sobrancelha desenhadinhas, dos teus cachos volumosos e lindos, até os pés feiosos – pés de bailarina. Correções imensas como o teu encanto com o pôr-do-sol e a natureza e o zelo com os amigos que se machucam, a sensibilidade prematura de se preocupar e acolher a tristeza do outro.

Tuas metamorfoses têm chegado muito mais rápido do que eu me preparo para elas, meu amor, mas a cada movimento de crescimento das tuas asas que ensaiam deixar o casulo, cresce esse sentimento: temos um amor imenso caminhando sobre a Terra. Em você, o amor ganhou vida fora de nosso peito. Sigo te desejando, mais que tudo, o que já desejava quando você era só sementinha na barriga da mamãe: que você caminhe sobre essa Terra com gentileza; que saiba dar e receber gentileza e caminhe sempre junto àqueles que, contigo, partilhem o tempo de tua caminhada sobre este solo. Quando te escrevi isso, ainda pensava que você seria menino e não sabia, então, de que forma você chegaria a nós. Mas escrevi para você, hoje sei:

Vai, menina voa, que a vida é boa
e nada é à toa, você vai ver!
Vai, menina, brinca, que a vida intrinca
pra quem não sabe como viver.
Vai, menina, sonha! A vida é risonha
a quem abre o riso pro amanhecer.
Vai, menina, canta! A vida acalanta
o canto daquele que nela crê.
Vai, menina, ama, que a vida é trama,
entranha o fio do bem-querer.
Vai, menina e nota que a vida é troca,
é jogo simples: dar, receber.

Da Dinda par você, com amor  que segue crescendo à medida do infinito.