Agora eles vão no banco de trás e eu é que cuido que seus cintos de segurança estejam travados. Vão-se deslumbrado com cada árvore florida na estrada e nos dizendo para olhar aquela e aquela outra, que lindas!, como costumavam dizer há muitos anos. Hoje me dou conta, nem sempre tive clareza: o amor que me deram me deu meu olhar.

Ao chegar ao nosso destino, ofereço a ele meu braço, tudo o que seu orgulho de homem que foi belo e forte, a vida inteira, permite aceitar. Caminhamos juntos e cuido que seus passos pisem onde haja firmeza, como ele cuidou dos meus um dia. Hoje me dou conta: o amor que me deram me deu o cuidar.

Caminho pelos aclives do terreno e, quando volto, encontro-os sentados juntinhos no banco de jardim, ele com o braço longo envolvendo os ombros dela. Não sei se os dois se dão conta de quão raro é o que têm. Olham juntos a escultura enorme, com olhar contemplativo e, vistos assim, parecem namorados de uma vida inteira, em filme de história de amor longeva. Nem tudo foram flores no caminho, eu estava lá e vi, então sei que nem tudo foi filme, há pouco o que escape a meus olhos. Mas sei que houve flores (quantas flores e quantas vezes!) e houve contemplação e houve sempre, e muito, respeito. O amor que me deram me ensinou que há fases que vêm e vão, mas há, em toda fase, sempre, o que contemplar.

Voltamos à casa – deles, mas sempre minha, não importa em qual construção – e falamos de poesia. Ela me recita versos de In Extremis, do Olavo Bilac – não consigo deixar de pensar em quão profundo é seu sentido hoje -, e os dois lembram o dia em que cheguei em casa tendo, como tarefa atribuída pela professora, que conversar com os pais sobre o sentido de felicidade. Eles me deram versos como resposta e hoje, me dou conta, quantas crianças não devem ter tido, nessa tarefa, resposta alguma de seus pais, simplesmente porque esses pais não tinham a menor ideia do que era essa tal felicidade, então não sabiam o que responder. Hoje sei: o amor que me deram me deu poesia, me deu o sentido.

Folheio o caderno de poesias que ela guarda desde sua adolescência, com aquelas folhas amareladas que abrigam manchas escuras e tantos sonhos. Lembro o dia em que, sem consultá-la, peguei o caderno e resolvi dar prosseguimento a ele. Levei bronca, o caderno era seu, eu não tinha o direito de invadi-lo sem permissão. Lembro o dia em que ela pegou meu diário e, querendo saber de meus diálogos com suas folhas, aqueles que eu não dialogava com ela, varou a madrugada lendo minhas conversas que eram para ser de mim comigo mesma. O diário não tinha tranca, eu tinha aprendido com eles que não era necessário. Eu não saberia que ela tinha violado a tranca inexistente, e só soube porque ela deixou uma folha escrita no diário, pedindo desculpas pela invasão. Eu achava que não precisássemos de trancas. Houve, antes, o dia da conversa em que ela me explicou que um casal também precisava de espaço. Entre tropeços e acertos,  o amor que me deram me ensinou a respeitar o espaço: dos outros e o meu.

Houve a vez em que ela voltou da casa religiosa que eles frequentavam e que eu e meus irmãos escolhemos não frequentar. Ela, surpresa com a quantidade de gente que, numa atividade de grupo, se confessara profundamente infeliz. Ela não entendia como podia haver gente que não encontrasse felicidade em nada. Ele, ao lado, introspectivo e, como sempre, bem menos falante, ouvia, sorria, concordava. O amor que me deram me deu liberdade de escolha e certeza de que caminhos em que não haja felicidade são incompreensíveis.

Houve os amigos deles com suas desilusões no caminho e eu entreouvindo suas conversas, principalmente as dela com as amigas – foi conselheira eleita por muita gente ao longo dos anos, ainda é. Eu ficava ali, sem que ninguém soubesse, ouvindo; de novo, invasão – amor às vezes derrapa nisso: invadir e ser invadido. Sem saber direito, eu ouvia e ia me formando, formando meu hábito de observar as pessoas, seu pensar, seu sentir. Ouvia: “É preciso ter interesses próprios, buscar preenchimento de si mesmo: um bom livro, um bom filme, música, dança, uma atividade em que possa doar-se aos outros e também receber. Sem isso, a vida é muito vazia e fica muito dependente de marés que não dependem de nós”. É preciso estar inteiro para se estar com o outro. O amor que os vi dar, me deu preenchimento.

Hoje me sento neste café e as rondas do garçom em torno de mim, enquanto escrevo, me contam que talvez haja poucos que passem tanto tempo consigo, em uma mesma mesa, olhando o nada, lembrando, observando os que vão e vêm e sendo felizes em meio a cotidianos comuns, sentimentos verdadeiros e palavras simples. Desde que consigo me lembrar de mim, sempre me foram necessários esses momentos de isolamento. Preciso ter momentos inteiros comigo para então estar inteira com os outros. Isso, talvez, me fizesse um tanto diferente. Eles me ensinaram a me manter fiel a quem sou, a não disfarçar pertencimento onde não me sentisse pertencente, a não desistir de mim: diferente não era ruim e, ao contrário, podia ser bom! O amor que me deram me deu dimensão de mim e não consigo me medir com outra medida que não seja o tamanho do seu amor. O amor que me deram me deu isto, e isto é mais que tudo: o amor que me deram me deu dimensão.