No colégio em que estudei, ser pego na rua com o uniforme e beijando era infração que sujeitava os infratores, alguns já por volta dos dezesseis anos, a serem levados de volta ao colégio para ouvir bronca e a terem os pais notificados (alguns dos quais, felizmente, ficavam perplexos por serem incomodados com isso). Desde aquela época me intrigava essa ira toda contra o beijo e eu perguntava: “O problema é o uniforme? Eles querem o quê? Que a gente fique pelado na rua antes de beijar? Não ia ser pior?”.

Alguns anos mais tarde, quando comecei a dirigir, meu pai me dizia que eu ia fazer umas barbeiragens e pedia que, acontecesse o que acontecesse, eu não reagisse se fosse agredida. Podiam me xingar, não tinha problema: que eu ficasse calma e não respondesse com agressões. Um dia, sem querer, fechei o carro de uma mulher. Ela me deu um buzinaço. Pedi desculpas. Ela me xingou. Lembrei os conselhos de meu pai e com a inconsequência e o deboche que os 18 anos carregam em si, joguei um beijinho para a senhora. Pronto. Foi o suficiente para despertar a fúria da mulher. Se eu tivesse xingado a mãe dela, não teria despertado tamanha fúria. Descobri, aí, que beijo pode irritar mais que xingamento.

Já nos anos de faculdade, viajei com amigos para um congresso em uma pequena cidade e, certa noite, uma amiga chegou ao hotel às gargalhadas: “Pessoal, descobri que nesta cidade é proibido beijar. Se a gente beija, vem um guardinha apitando e mandando parar!”. Outros passaram pela mesma situação ao longo daquele congresso: testemunharam o poder público mobilizado contra o beijo.

Passaram-se anos e eu continuei, por força do trabalho em uma grande universidade, transitando em meio a gente bem jovem. Um dia, final de ano, quase Natal, a universidade já estava bem esvaziada e só frequentada pelos alunos pendurados em provas para lá de finais. Havia um casal no corredor de um dos prédios, sentado no chão, diante da porta fechada de um gabinete de professor e trocando um beijo apaixonado. Imaginei que estivessem ali esperando resultado de prova. Os acadêmicos passavam e reclamavam: “Isso não é lugar!”. Eu pensava, cá comigo, que estavam todos era com inveja e que há muito não deviam saber o que era isso, se perder num beijo sem se dar conta de quem passa ao redor. Imaginava toda uma história em que o romance do casal teria começado ali naquela espera e o professor carrasco acabava, involuntariamente, tendo sido o cupido, rá! No futuro, já velhinhos, contariam sua história: “Não fosse termos levado pau em Cálculo, não estaríamos aqui hoje…”. Achei uma forma feliz de encerrar o período.

Na mesma universidade, um dia uma pessoa se incomodou ao ver beijo entre duas moças: “Será que não tem como proibir isso não?”, e eu: “O quê? Beijo?”; “Não, esse tipo de beijo!”; eu de novo (gosto de me fazer de Vênus de Milo – acho que me cai melhor que João-sem-braço): “Beijo na boca?”. A pessoa perdeu a paciência e respondeu contrariada: “Não! Beijo entre mulheres, beijo entre homens!”. Respondi que eu achava que se proibisse, tinha que proibir geral, mas que desconfiava que não havia base legal para proibir beijo, então era melhor deixar liberado geral mesmo. Porque, afinal, o que constrange em uma cena envolvendo um casal deveria constranger da mesma forma, fosse o casal homo ou hétero. Um simples beijo de despedida não me incomoda, seja ele qual for, entre quem for. Continua a me intrigar isso: por que é que o beijo e, em última instância, momentos de felicidade, de leveza, de amor, incomodam tanto algumas pessoas? Intriga mais ainda por me fazer perceber que vivemos em uma sociedade infeliz e frustrada, porque tenho uma convicção profunda de que gente feliz e bem resolvida não tem espaço em sua vida para se incomodar com o que faz a felicidade do outro.

Nos últimos dias, em meio a discussões político-ideológicas, voltei a esbarrar com pessoas incomodadas com “Como explicar a meu filho dois homens se beijando?”. Não vejo essas pessoas anteciparem, aflitas, como explicarão a seus filhos que um homem mate outro homem; que um homem, de um lado do mundo, ordene um ataque do outro lado do mundo e atinja dezenas, centenas de civis e entre eles, crianças, escolas inteiras; que um homem invada um espaço e saia metralhando pessoas a esmo; que famílias tenham que abandonar tudo o que têm para fugir do horror das guerras, que um homem mate covardemente um touro, com requintes de crueldade, enquanto uma arena inteira o aplaude, que haja tantas pessoas que aprisionem pássaros e outras que matem manadas inteiras de elefantes e que deixem sua carne apodrecendo aos abutres, interessadas apenas no marfim de suas presas. Não vejo a perplexidade e a pergunta que seria tão natural: “Como explicar a meu filho que o mundo em que vai viver comporta esse tipo de horror?”. Então é com isso que ando sonhando para as próximas décadas: com um mundo povoado por pessoas mais felizes, mais realizadas, que não precisem ter aversão a beijos, essa aversão que, no fundo, expõe sua própria infelicidade e frustração. Um mundo em que beijos sejam sempre bem-vindos e em que a perplexidade seja reservada àquilo que deveria realmente nos consternar: tudo aquilo que se origina da falta de amor, nunca o contrário.